
Por Maarji Castilho
O fato de dois raios cairem em um mesmo lugar não pode, simplesmente, ser fruto do acaso. Nesta quinta, 09/05, um novo incêndio em uma indústria têxtil mata sete pessoas, no polo confeccionista de Daca, em Bangladesh. É mais uma triste notícia a somar-se às centenas de mortes no desabamento de uma fábrica de tecidos na mesma cidade, duas semanas atrás. Além da dor, o silêncio do setor para este que já está sendo considerado o pior acidente da história da moda tem se revestido muito menos de choque e luto do que de culpa.
Se formos analisar, o desastre em Bangladesh é, em um cenário maior, o mais recente desdobramento de um processo adotado de forma sistemática pelas empresas têxteis há pelo menos três décadas. Nesse período, profundas mudanças sociais tem transformado conceitualmente o produto de moda no Ocidente, atribuindo cada vez mais valor ao poder do branding do que na manufatura em si. Assim, hoje, a experiência da compra de uma tag torna irrelevante se a roupa é feita na Espanha ou em quintais super lotados de imigrantes bolivianos em São Paulo.
Os recentes casos Cori e Zara aqui no Brasil são primos próximos da tragédia de Bangladesh. A transferência de responsabilidade pela manufatura de seu produto final não implica em isenção da responsabilidade socioeconômica da marca. E nisso, estão juntas tanto empresas do relativamente recente fenômeno fast fashion quanto as tradicionais maisons da exclusividade europeia.
Não se pode atrelar a qualidade de uma peça ao valor de etiqueta. Dizer que é eticamente preferível comprar em marcas mais caras do que em grandes magazines é iludir-se com pouco. A verdade é que mesmo os famosos selos de garantia “Made in Italy” ou “Made in USA” trazem consigo a invisibilidade do trabalho barato de imigrantes chineses de um lado e mexicanos do outro. A exploração é a mesma.
Então qual a solução?
Depois de Bangladesh, muitos cidadãos do primeiro mundo (os principais consumidores e alvo final dessa história toda) tem-se mostrado preocupados. Alguns afirmam que seus países de origem não deveriam mais trabalhar com países onde não há leis trabalhistas efetivas. Isso não resolve lá muito, tanto pelo que foi dito acima, quanto pelo risco de que, de uma forma ou de outra, alguns insumos da cadeia têxtil terem passado por esse tipo de processo, como é o caso do algodão e dos tecidos chineses. Além disso, simplesmente ignorar a situação de trabalhadores de países subdesenvolvidos parece ser uma alternativa cruel: muitos dos que morreram em Bangladesh teriam “empregos” muito piores não fosse aquela tecelagem.
Por um outro lado, o exemplo de movimentos como o Occupy, com seu slogan afirmando que “nós somos os 99%”, tem alertado para a questão da extrema concentração de riqueza do capital empresarial. Isto envolve diretamente não somente os CEOs e altos executivos da LVMH e PPR, mas também todos nós do ramo de confecção local, que mandamos nossas fichas técnicas de produto para facções sabe-se lá em qual periferia da “city”.
Olhando assim, por alto, já dá pra ver que a solução está longe de ser encontrada. O fato é que, convenhamos, a indústria da moda, assim como o sistema atual de produção e consumo atingiu um ponto crítico. Precisamos acordar em meio aos nossos looks e perceber que a forma como consumimos tem um forte caráter político. E isso pode até parecer um mero blablabla para nós, aqui, “a salvo”. Mas não para os 810 trabalhadores têxteis mortos em Bangladesh.
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